#1 Carta a Matilde
Querida Matilde,
Hoje tive um auspício de pânico que me pôs a escrever. É terrível, mas é verdade - até então, eu não tinha sentido qualquer vontade que pudesse ser diferenciada de senso de obrigação de te contar algo. Não conseguiria fazê-lo sem me sentir traída, então não fiz. Vejo com frequência escritores que têm o ofício como a vida em si, e me sinto tão distante disso quanto é possível. Não escrevo pra me sentir viva, mas pra suspender a pulsão de morte que se coloca como uma neblina entre mim e a vida. O pânico é esse despertador maligno e sincero que se convida com habitualidade, mas que, ao menos, me trouxe até você.
Devo começar com um pedido de desculpas por não ter qualquer desejo de te atualizar do elevador que vive quebrado e das demais pequenas inconveniências. Espero que você não sinta que essa ausência de informações nos deixa mais distantes. Não sei se minha recusa em relatar é uma atração pelo mistério ou minha repulsa conhecida de falar em literalidades. Eu até te contaria caso arquitetasse um tom anedótico pra essas chatices, mas não o encontrei. Tenho medo de te entediar, Matilde.
Quero te contar, porém, que moro em frente a um cemitério e ao lado de outro. Essa possibilidade vinha me animando porque pensei que com certeza haveria uma floricultura ao lado e eu poderia comprar flores semanalmente. A verdade triste é que não sinto vontade de encher esse ambiente de mais um objeto que, no fim, não lhe faz jus. Mas penso no exagero que seria sair para ler um dia rodeada de jardins e fantasmas e me esbaldo. Não o faço por ter medo de ser expulsa ou pior, fotografada. Tudo o que me encanta aqui é exagero ou sutileza, aliás. Tudo o que me espanta é cínico.
Há muito pra se olhar, as pequenas cenas da metrópole me fascinam. Em frente ao balcão de flores, vi um dia um homem atravessar a faixa de pedestres correndo com um buquê e um cachorro. Em poucos dias, senti que meus olhos estavam ficando fatigados de tanto interesse e tive medo do quanto isso pode ser anti-natural a um par de olhos; em que momento os focos de luz se dissolvem entre si e passam a ser vistos como uma tela em branco?
Também é possível se perder em espelhos - aqui, tudo é espelho, e tenho medo de ser engolida pela minha própria imagem, sendo lembrada dela constantemente. É estranho: tudo é espelho, mas nada é água, a não ser a chuva, que nada reflete. Aqui não chove, deságua. Até os trovões vão além do esperado, te tiram abruptamente de qualquer estado de consciência. Vi um trovão derrubar duas árvores na minha frente, e saí de casa pra jantar e beber um vinho em seguida, no limiar entre o exagero e o cínico.
Matilde, não sei se você já percebeu que as pessoas daqui escrevem usando muitas vírgulas. Posso te confessar que costumo ser avessa a esse recurso (salvo o saramago, sempre), ao mesmo tempo em que luto contra ele. Que previsível ter que recorrer à explicação mais óbvia de que esta cidade rouba das pessoas os pontos finais, as possibilidades de parar e refletir um pouco, em uma tendência aos atropelamentos. Eu tenho me agarrado aos pontos finais, mas já quase fui atropelada algumas vezes aqui, uma delas por um ônibus, me recordo até de ter ouvido uma buzina. Prometo que olho pros dois lados, mas às vezes penso em como deve ser o impacto alucinante de se deixar levar em uma curva qualquer.
Há tempos ando distraída e esse é um atributo que eu cultivo de forma consciente, como se fosse uma virtude. Se eu não me distrair, não conseguirei perceber mais nada, e tudo que vai me sobrar é escrever. Como eu te disse, tudo que me espanta é cínico. Tenho medo de perder o espanto na velocidade das coisas.
Recordo minha analista, que uma vez me repetiu a palavra distraída separando as sílabas: des-traída. Na hora ri, porque elas são todas assim, mas agora percebo que comecei essa carta falando de não aceitar me sentir traída. Não sei como nem porque, mas os círculos sempre se formam. Um escritor uma vez disse que primeiro você escreve, depois entende - acho que é dessa espécie que sou.
Não se aflija com as coisas que te conto, se é que consegui te contar algo. Nada disso é necessariamente verdade ou mentira. A tristeza é um vocabulário que crio como um adereço, muito mais pra adornar o banal das experiências. Tudo que eu situo pra você entre o trágico e o cômico é, felizmente, comum.
Com amor,
Relutei em quebrar a quarta parede aqui, mas, cá estamos. Eu tenho um encanto por cartas, pelo tom confessional e pelas livres associações que acontecem. Também por outras coisas que são mistério e não sei porque, mas me deixam fascinada. Esse encanto não é proporcional à quantidade de livros de cartas que já li, uma pena, mas uma desculpa pra quem quiser me recomendar algum. Ah, e se alguém lembrar a autoria da frase sobre primeiro escrever, depois compreender me conta também, por favor? Eu esqueço todos os nomes, é um mal que já me acostumei e que transformei em desculpa pra inventar.
Essa news segue um caminho sem afeição à periodicidade e aos gêneros, com inclinação ao susto na caixa de e-mail. Até a próxima curva.

